Uma das ferrovias mais emblemáticas do Sudeste brasileiro está sendo reinterpretada a partir do olhar de quem vive ao seu redor. Até 2028, moradores de Minas Gerais e do Espírito Santo participam de uma iniciativa cultural que utiliza fotografia e audiovisual para revisitar histórias, paisagens e memórias ligadas à Estrada de Ferro Vitória a Minas, que percorre mais de 900 quilômetros entre os dois estados.
Batizada de Projeto Estação, a ação aposta na arte como ferramenta de preservação da memória ferroviária e de valorização das comunidades situadas ao longo do traçado. A proposta envolve diretamente moradores de cerca de 30 localidades, transformando experiências cotidianas em registros visuais que conectam passado, presente e identidade territorial.
Realizado pela HORUS Planejamento e Gestão, o projeto conta com apoio da Vale e da Agência Nacional de Transportes Terrestres. Em seu primeiro ano, a iniciativa mobilizou jovens entre 16 e 25 anos, que passaram a registrar suas cidades, personagens locais e elementos da paisagem ferroviária usando apenas câmeras de smartphones.
O trabalho desenvolvido em Minas Gerais percorreu cidades como Belo Horizonte, Itabira, João Monlevade, Nova Era, Barão de Cocais e Rio Piracicaba, além de dezenas de outros pontos ao longo da ferrovia. Como resultado, o Projeto Estação já reúne centenas de imagens e instalações artísticas espalhadas por escolas, praças, muros e antigas estruturas ferroviárias, transformando espaços urbanos em galerias a céu aberto.
Mais do que documentar a ferrovia como infraestrutura, a proposta busca revelar o que existe ao seu redor: histórias de vida, afetos e vínculos construídos ao longo de décadas. Personagens anônimos, ex-ferroviários e moradores que cresceram à sombra dos trilhos ganham protagonismo, reforçando a ferrovia como elemento vivo da cultura regional.
Para o idealizador e coordenador geral do projeto, Preto Filho, a iniciativa cria uma rede de trocas entre arte, território e juventude. O objetivo para os próximos anos é ampliar o alcance da ação e democratizar o acesso à fotografia e ao audiovisual, fortalecendo a relação das comunidades com sua própria história.
Do ponto de vista institucional, a iniciativa também dialoga com a preservação do patrimônio ferroviário. Para o diretor-geral da ANTT, Guilherme Theo Sampaio, projetos como esse ajudam a enxergar a ferrovia para além da engenharia, destacando seu papel social e cultural nos territórios que atravessa.
O Projeto Estação também se destaca pelo perfil diverso dos participantes. Entre os inscritos, mulheres e pessoas negras formam a maioria, evidenciando o papel da cultura como ferramenta de inclusão e acesso. Ao todo, dezenas de jovens passaram por formações teóricas e práticas, resultando em produções fotográficas, obras audiovisuais e exposições físicas e digitais.
Em Belo Horizonte, parte do acervo integrou uma mostra realizada no Espaço Cultural da Escola de Design da Universidade Estadual de Minas Gerais, dentro do Circuito Liberdade. Paralelamente, o lançamento de uma galeria virtual ampliou o acesso às obras, permitindo que o público acompanhe o projeto independentemente da localização.
Até 2028, a proposta é seguir expandindo o percurso artístico ao longo da ferrovia Vitória-Minas, alcançando novas comunidades e registrando, pelas lentes de quem vive o cotidiano dos trilhos, as histórias que continuam moldando a paisagem e a identidade de mineiros e capixabas.

